Saúde mental: da cannab1s para o Psicodélico
A Biocase Brasil — da qual o Instituto Alma Viva é o centro de ensino e pesquisa — nasceu do encontro entre médicos que buscavam novas formas de promover saúde e bem-estar. Nesse contexto, a cannabis medicinal surgiu como um primeiro e promissor caminho.
O trabalho inicial envolveu importantes quebras de paradigma: foi preciso informar e formar a classe médica sobre os potenciais terapêuticos da planta, sempre com base em evidências científicas, além de orientar sobre a prescrição responsável, de acordo com cada condição clínica. Ao longo desse percurso, mais de 3.000 profissionais de saúde foram capacitados, tanto em formatos presenciais quanto online.
Com o tempo, os médicos fundadores passaram a consolidar o nome da empresa, participando de cursos, encontros e palestras, além de escrever livros sobre esse novo campo terapêutico. Foi nesse ambiente de troca que começaram a ouvir, com mais frequência, sobre os chamados psicodélicos — tema que chegava por meio de colegas médicos presentes nos mesmos eventos científicos.
“Esse cara é um hippie.”
“Isso é coisa dos anos 60.”
Reações como essas são compreensíveis quando o assunto surge de forma superficial ou descontextualizada.
O que eles não esperavam, porém, era a robustez das evidências científicas acumuladas no campo da saúde mental. Universidades de enorme prestígio — como Johns Hopkins, Harvard, Imperial College London, UCSF, Cambridge e Berkeley — vinham produzindo estudos sólidos, publicados em periódicos de altíssimo impacto, como Nature, JAMA e New England Journal of Medicine, entre muitos outros.
Aos poucos, tornou-se evidente que os psicodélicos poderiam representar uma ferramenta terapêutica com potencial verdadeiramente transformador na saúde mental. Foi então que surgiu a decisão de direcionar os esforços de pesquisa do Instituto Alma Viva para esse novo campo. A pergunta seguinte era inevitável: qual substância estudar — e por quê?
A resposta foi a psilocibina, princípio ativo presente nos chamados cogumelos “mágicos” do gênero Psilocybe. A escolha se deu por vários motivos. Primeiro, pela extensa literatura científica demonstrando sua eficácia no tratamento da depressão, especialmente em casos resistentes. Segundo, por se tratar de uma substância de origem natural, encontrada de forma nativa no Brasil. E, ainda, pelo fato de não existir, no país, um uso ritualístico consolidado entre povos originários envolvendo especificamente esses cogumelos — o que abriu espaço para um caminho clínico e regulatório distinto.
Embora seja uma substância de controle especial estrito, seu potencial terapêutico é significativo. Estima-se que cerca de um terço dos pacientes com depressão não responda adequadamente aos tratamentos tradicionais. Estudos clínicos com psilocibina têm demonstrado taxas de resposta e remissão superiores nesses casos de depressão maior resistente. Além disso, trata-se de uma substância com baixíssimo potencial de dependência e frequentemente classificada entre as mais seguras para uso em seres humanos em estudos comparativos de risco.
Os resultados promissores não se limitam à depressão. Pesquisas também apontam benefícios no tratamento da ansiedade, da dependência química — especialmente álcool e tabaco — e do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Ainda assim, a decisão estratégica foi focar na condição com maior volume de evidências científicas de alta qualidade: a depressão.
No Brasil, estima-se que cerca de 30 milhões de pessoas convivam com depressão, segundo dados do Ministério da Saúde, muitas delas sem diagnóstico. Aproximadamente 8 milhões estão em algum tipo de tratamento, e, desses, cerca de um terço não encontra eficácia satisfatória. É nessa lacuna de sofrimento que a psilocibina surge como possibilidade terapêutica. Em muitos estudos clínicos, observa-se que uma única dose pode produzir efeitos duradouros por meses, sem gerar dependência ou efeitos adversos relevantes.
A partir desse ponto, os esforços inicialmente pensados para o desenvolvimento de medicamentos à base de cannabis passaram a ser direcionados à psilocibina. Em 2021, teve início a parceria com a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), marcando o primeiro grande passo nos estudos farmacológicos da substância. Esse trabalho incluiu o desenvolvimento do insumo farmacêutico ativo (IFA) e de um medicamento experimental derivado de cogumelos psilocibinos.
No mesmo ano, foi obtida a primeira licença para o trabalho com cogumelos psilocibinos, além da importação dos padrões bioquímicos de psilocibina e psilocina, fundamentais para a calibração de equipamentos laboratoriais de alta precisão.
Nos anos seguintes, uma série de marcos importantes foi alcançada: consolidação da parceria com a UFCG, aquisição de câmaras de estabilidade e fotoestabilidade, fomento da FAPESP e da FAPESC, elaboração da primeira versão da Brochura do Investigador, caracterização das substâncias e início dos processos de extração. Vieram também a aprovação ética e regulatória do estudo clínico de Fase I em voluntários saudáveis (CEP/CONEP e registro na ReBEC), estudos de toxicidade e genotoxicidade, definição de posologias, parcerias com a indústria farmoquímica e farmacêutica em ambiente GMP, a licença da ANVISA para importação de 18 kg de cogumelos psilocibinos e o início da produção de lotes-piloto com resultados promissores de estabilidade.
Com todo esse avanço técnico e regulatório, uma pergunta permaneceu central: quem estaria preparado para conduzir, de forma ética e segura, as sessões de Psicoterapia Assistida por Psicodélicos, como nos grandes estudos internacionais? Afinal, a PAP envolve etapas fundamentais de preparação, condução e integração da experiência.
Foi dessa pergunta que nasceu o Instituto Alma Viva e, com ele, a primeira pós-graduação em Psicoterapia Assistida por Psicodélicos aprovada pelo MEC no Brasil. Uma formação voltada a profissionais da saúde mental, que reúne professores com experiência direta em universidades da América do Norte e se estrutura sobre três pilares fundamentais: ciência, ética e cuidado.
Hoje, com a pós-graduação chegando à sua quarta turma, torna-se claro que a Biocase Brasil e o Instituto Alma Viva não estão apenas desenvolvendo um medicamento ou ensinando protocolos terapêuticos. Estão contribuindo para a abertura de novos caminhos na saúde mental, oferecendo esperança a quem não encontra resposta nos tratamentos tradicionais e construindo, com responsabilidade e evidência, novas formas de cuidado.

