Pesquisas clínicas trazem esperança no tratamento da ansiedade em doenças na fase terminal

Os psicodélicos que promovem melhoria na qualidade de vida

O uso das substâncias psicoativas na psicologia e psiquiatria tem alcançado resultados efetivos no tratamento de depressão, ansiedade e dependência de álcool. Outro grupo que obteve respostas muito promissoras incluiu pacientes com doenças terminais, amenizando o sofrimento psicológico e incapacidade. 

Doenças potencialmente fatais e que envolvem cuidados paliativos, costumam gerar distúrbios, com prevalência de ansiedade e transtornos depressivos. É notório que esses pacientes tendem a apresentar abalo emocional e sofrimento existencial, caracterizado por sentimentos de desesperança, falta de sentido e grande sensação de fracasso. 

As pesquisas científicas têm como desafio, descobrir alternativas mitigadoras do sofrimento, a fim de proporcionar melhor qualidade de vida ao paciente. Nesse sentido, os tratamentos adicionais estimulam o interesse em explorar o potencial terapêutico dos medicamentos psicodélicos.

As primeiras pesquisas, realizadas nas décadas de 1950 e 1960 consistiram em ensaios clínicos, utilizando a psilocibina e a dietilamida do ácido lisérgico (LSD) em doenças terminais e observando a atividade agonista nos receptores 5-HT da serotonina e propriedades que alteram a percepção. 

As pesquisas mais recentes foram direcionadas aos pacientes com doenças em fase terminal e observaram a utilidade das substâncias psicoativas, em tratamentos alternativos. 

Esse estudo reuniu os resultados obtidos em ensaios clínicos randomizados e ensaios abertos, para avaliar a expectativa e a eficácia dos tratamentos com as substâncias: cetamina, psilocibina, 3,4-metilenodioximetanfetamina e dietilamida do ácido lisérgico. Foram considerados apenas os ensaios que: testaram psicodélicos clássicos e substâncias relacionadas (MDMA e cetamina), incluíram participantes com doenças potencialmente fatais ou em cuidados paliativos e incluíram resultados psicológicos. 

Para melhor compreensão sobre andamento dessas pesquisas científicas foram relacionados os estudos mais relevantes para cada substância.

Psilocibina

A análise da Psilocibina na Universidade de Nova York compreende um ensaio clínico randomizado (ECR) multicêntrico (com maior amostra de pacientes), duplo-cego, controlado por placebo, em pacientes com câncer em estágio avançado. A intervenção consiste na aplicação de doses únicas de 25 mg ou 1 mg de psilocibina, administradas em conjunto com a psicoterapia. 

A atenção está voltada aos efeitos antidepressivos e ansiolíticos duradouros da psilocibina em baixas doses e outros placebos ativos, que podem induzir uma reação fisiológica aguda leve, como a administração de niacina, que tem sido usada em doses de até 250 mg, como placebo em estudos anteriores com psilocibina. Devido às propriedades psicoativas, o benzodiazepínico midazolam de ação curta já foi usado como comparador ativo em ensaios psicodélicos com sucesso parcial. 

Um estudo em andamento, realizado pelo Instituto Nacional de Saúde Mental, do governo da Republica Tcheca, compara a ação de 20 mg de psilocibina, 200 mg de cetamina e 5 mg de midazolam (placebo ativo), em combinação com psicoterapia, no tratamento de pacientes com câncer e depressão. 

A Universidade da Califórnia desenvolve um ECR, cego, que fornecerá uma comparação cruzada, utilizando doses únicas de psilocibina ou cetamina. Além disso, um estudo aberto no Hospital de Ottawa avalia a viabilidade da microdosagem de psilocibina (1–3 mg/dia) para sofrimento existencial em pacientes em cuidados paliativos. 

Um ensaio aberto na Maryland Oncology explora o potencial terapêutico do tratamento em grupo assistido por psilocibina em pacientes com câncer e depressão maior. Este estudo inclui a administração de 25 mg de psilocibina em um centro de câncer, complementado por sessões preparatórias e de integração em grupo. 

O estudo feito pelo centro de pesquisa da Johns Hopkins em 2016 mostrou que duas doses de psilocibina, separadas por um intervalo de 5 semanas, produziram reduções substanciais e sustentadas na depressão e ansiedade em pacientes oncológicos com risco de vida, com cerca de 80% dos participantes continuando a mostrar melhoras clinicamente significativas no humor e ansiedade após 6 meses.

Cetamina

A psicoterapia assistida por cetamina (CAP) tem como objetivo aproveitar as propriedades psicodélicas da cetamina em doses relativamente mais elevadas, para tratar doenças psiquiátricas. Dois ensaios clínicos combinam cetamina com psicoterapia. 

O ECR realizado pela Ketamine Research Foundation consiste em um estudo piloto com medicação intramuscular, em pacientes terminais. Duas sessões separadas com doses múltiplas de até 100 mg por sessão serão administradas a 18 indivíduos em 5 locais. O grupo continuará a receber o tratamento convencional pré-existente e completar as mesmas avaliações, para posterior intervenção cruzada opcional. 

Outro ensaio no Northwell Health é um estudo aberto com medicação intramuscular repetido com doses individualizadas de até 60 mg ou 1 mg/kg em uma sessão. Ambos os estudos explorarão o impacto da intervenção no sofrimento existencial, conforme avaliado pela Death and Dying Distress Scale (DADDS). 

Variadas formas de administração são analisadas em outros ensaios, com o uso de cetamina, em quadros de doenças na fase terminal, incluindo a via intravenosa, via intramuscular, via oral, via subcutânea e via intranasal.  Estes ensaios são concebidos como meio para minimizar os sintomas psicotomiméticos da cetamina, devido ao intervalo de dose mais baixo utilizado (por exemplo, <0,5 mg/kg intravenosa, <1 mg/kg oral) em comparação com os dois ensaios CAP.

Dietilamida do Ácido Lisérgico – LSD

Outro ECR em desenvolvimento na Universidade de Nova York concentra-se na psicoterapia assistida por LSD, em pacientes com síndromes dolorosas oncológicas avançadas; sofrimentos existenciais e psiquiátricos são desfechos secundários importantes. 

Um ensaio semelhante está em desenvolvimento no Conselho de Pesquisa em Saúde da Nova Zelândia (HRCNZ), da Universidade de Auckland e avalia a viabilidade de combinar LSD microdosado com psicoterapia centrada no significado. Este estudo fornecerá a 40 pacientes com câncer avançado uma dose titulada de LSD (4–12 µg) ou um placebo inerte duas vezes por semana durante 6 semanas, tanto na clínica quanto em casa. A manutenção do cegamento e a expectativa de tratamento serão medidas como resultados secundários. 

3,4-Metilenodioximetanfetamina

Os estudos realizados nas Universidades de Otago e Auckland, na Nova Zelândia, visam avaliar o efeito da psicoterapia, com dosagem de 120 mg de MDMA ou 20 mg de metilfenidato, em pacientes com câncer em estágio avançado.  

Os testes em andamento, realizados com medicamentos psicodélicos, para o tratamento de depressão, ansiedade e sofrimento existencial em pacientes com doenças terminais, demonstram o interesse crescente no estudo. A psilocibina e a cetamina são as substâncias que despertaram maior interesse de pesquisa. 

Observou-se que o tratamento associando medicamentos e psicoterapia é incomum, nos ensaios com cetamina e quase universal nos ensaios atuais, que combinam os medicamentos com psilocibina, 3,4-metilenodioximetanfetamina ou LSD. 

Os ensaios clínicos em andamento exploram os benefícios e os efeitos da microdosagem de psicodélicos, na fase terminal de doenças potencialmente fatais. Destacou-se a necessidade de estudos mais extensos, para confirmar os resultados terapêuticos e estabelecer um perfil de segurança a longo prazo. 

Os cuidados paliativos modernos exigem uma abordagem multidimensional para melhorar a qualidade de vida, abordando necessidades físicas, psicológicas, sociais e espirituais ou existenciais. Evidências preliminares demonstraram efeitos psicológicos positivos e redução do sofrimento psiquiátrico e existencial após tratamentos psicodélicos. 

Por fim, esses estudos apoiam o potencial dos medicamentos psicodélicos, destacam o interesse científico contínuo, em nível internacional e identificam ensaios em fase de preparação, destinados a fornecer adições importantes à base de evidências.

Referências 

CARHART-HARRIS, Robin L.; GOODWIN, Guy M. The therapeutic potential of psychedelic drugs: past, present, and future. Neuropsychopharmacology, v. 42, n. 11, p. 2105-2113, 2017.

https://doi.org/10.1038/npp.2017.84

JING, Xuepeng; HOEH, Nicholas R.; MENKES, David B. Psychedelic medicines for end-of-life care: Pipeline clinical trial review 2022. Palliative & Supportive Care, p. 1-8, 2023.

https://doi.org/10.1017/S147895152300069X

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